O campo de estudo da teologia sistemática é vastíssimo. E não
serei eu ou qualquer outro escritor que vai esgotá-lo. Desejo apenas dar a
minha contribuição, mesmo que pequena, ao estudo da matéria em tela.
Nas minhas pesquisas sobre teologia sistemática percebi que, do
lado das Assembleias de Deus no Brasil, temos material muito escasso e sempre
produzido por escritores estrangeiros. Não que seja contra a qualquer pena
estrangeira que tenha seus escritos fundamentados nas Escrituras Sagradas.
Absolutamente. Não sou xenófobo. Só que entendo que teologia sistemática – como
qualquer outra teologia – é quase sempre produzida no espaço existencial de um
povo. Os cristãos brasileiros temos nossas experiências, dilemas, lutas,
anseios de liberdade, e tantos outros aspectos que desembocam em motivos
pujantes para elaborarmos a nossa teologia sistemática. Conquanto entendamos
que as Escrituras não são de interpretação pessoal, nem tampouco cultural, há
certas nuances presentes na história de uma nação que influenciam – e muito – a
exposição da teologia.
A teologia é também um pensar com passagem pela cultura e pela
experiência que se vive com e por Deus em determinado momento da história da
vida. Por exemplo, os salmos contêm uma centena de passagens que evocam esta
compreensão, principalmente os salmos antitéticos, que expõem o jogo de
oposição entre o «justo» e o «ímpio», ressalvando sempre a ideia de que o
«justo» é sempre premiado em detrimento do «ímpio», que é condenado.
Nosso entendimento sobre isso – é lógico – vai muito mais além de
qualquer cultura ou experiência que um povo possa ter com Deus. Isto porque,
muitas vezes, a teologia é contramão da história e das culturas reinantes, na
medida em que ela não se deixa influenciar por visões engessadas, viciadas,
corrompidas.
O que eu quero que o leitor entenda neste meu arrazoado é que,
quando falo de «cultura» e «experiência», não me refiro às nossas
idiossincrasias particulares, mas sim a «cultura» e «experiência» produzidas no
âmbito da própria vivência religiosa.
Uma leitura bíblica feita a partir do sujeito histórico dominante
e de sua força religiosa de dominação expropria a espiritualidade, memória e
escritos inspirados de um povo.
O fundamentalismo e o historicismo não são assim inocentes, pois
expropriaram a Bíblia do povo e a entregaram ao sistema dominante. Uma Bíblia
assim expropriada, cativa e alienada, perde o sentido histórico e espiritual e,
portanto, toda a capacidade de dar testemunho histórico da Palavra de Deus ou
sua capacidade de discernir essa Palavra de Deus hoje no mundo dos pobres.
Lembro-me de um «Simpósio Teológico» em que vários pastores
nacionais participaram e, ao final, o palestrante – estrangeiro – pediu perdão
aos pastores do Brasil pelo mal que fizeram à nação brasileira com o seu legado
teológico.
Por isso e por outras situações que aqui não convêm mencionar é
que me disponho a escrever a primeira teologia sistemática escrita por um escritor
genuinamente brasileiro.
Esta decisão tomada por mim é em função de leituras feitas ao
longo dos anos de teologias sistemáticas vulneráveis e também por não achar
nada compatível com a realidade do comportamento brasileiro «pentecostal
assembleiano» nos manuais sistemáticos que até aqui pude ler.
Tenho a consciência de que não conseguirei açambarcar todas as
injunções da teologia sistemática, mas conto com a compreensão dos leitores,
que poderão ajudar-me, bastante, enviando suas opiniões complementares, as
quais serão acrescentadas em nosso manual de teologia sistemática brasileira.
Espero, é lógico, incluir ideias que possam melhorar a qualidade do nosso
trabalho e seremos bem rigorosos nesta seleção.
Desde já quero afirmar que a nossa teologia sistemática brasileira
é obra inacabada. Por isso despojo-me da ideia de que a nossa será a mais
apreciada em relação a todas as que já existem. Nosso enfoque objetiva, única e
exclusivamente, contribuir para fortalecer os postulados já existentes e
ampliar o campo de compreensão dos temas já sistematizados por algumas
denominações.
Não criarei mais uma teologia sistemática. As teologias
sistemáticas já existentes proporcionam-me material suficiente para trabalhar.
Apenas analisarei as que já existem, tendo como meta a Bíblia Sagrada, o nosso
fundamento de fé. Como Lutero, serei implacável em combater ideias surgidas de
compreensões calcadas em experiências pessoais, subjetivas ou qualquer fenômeno
que ponha em risco a veracidade da Palavra de Deus. O interesse de Lutero era
basear a teologia cristã exclusivamente na Palavra de Deus. «Essa palavra é o
tema da Escritura como um todo, está manifesta na encarnação de Jesus Cristo e
presente hoje na viva voz do evangelho (viva vox evangelli)», dizia Lutero.
Mas, também, não deixarei de mencionar a sutileza dos que dominam o
conhecimento de expropriar do povo o direito de pensar e de fazer teologia, no
seu espaço de luta, dor e sofrimento.
Sou comprometido com a posição da reforma protestante e
absolutamente fechado com
1. A visão conservadora da inerrância da Bíblia Sagrada.
2. A soberania de Deus e a responsabilidade do homem.
3. A insofismável doutrina da salvação. Segundo a Bíblia Sagrada e
a própria visão contemporânea, sustento que o homem tem liberdade de escolha e,
por escolher o caminho do mal às vezes, pode perder a salvação.
4. A ideia de que Jesus Cristo é o Filho de Deus – verdadeiro Deus
e verdadeiro homem.
5. A visão do batismo com o Espírito Santo como sendo
«revestimento de poder» e também sustento a doutrina dos «dons espirituais»
como sendo uma manifestação do Espírito Santo para os dias atuais.
6. O governo da igreja. Defendo o governo episcopal, com a
presença de presbíteros e ministros – pastores e evangelistas. Com respeito ao
ministério de apóstolo, sustento a ideia de que se trata de uma vocação, como
as demais mencionadas em Efésios: pastor, evangelista, profeta, mestres, nada
que resulte grandeza e ascensão sobre os demais ministérios.
7. A ideia de que as expressões «Reino de Deus» e «Reino dos Céus»
trata-se de um sinônimo e que sua realidade já é um fato entre nós, conquanto
acreditemos no «ainda não» do Reino, ou seja, na «consumação» do Reino de Deus
entre os homens, fato que ocorrerá na segunda vinda de Jesus Cristo.
8. Acredito que a segunda vinda de Jesus pode ocorrer a qualquer
hora.
Com esta apresentação não estou ignorando que existam outras ideias.
Mas todas elas, teorias que são diferentes daquilo que nós, pentecostais,
acreditamos, fiz questão de trabalhar cada uma, em separado, mostrando sua
posição teológica e dizendo sobre os seus pontos positivos e falhos, com
apresentação de respectivas objeções. Fiz isto para não deixar de transmitir
aos leitores a existência de outras concepções no âmbito da teologia
sistemática.
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA CONTEMPORÂNEA
No III Congresso Brasileiro de Teologia Vida Nova, discutiu-se a
questão da interpretação da Bíblia, nas suas várias teorias e práticas
presentes no Brasil atual. Um fato chamou minha atenção por sua complexidade: a
denúncia da teologia sistemática como não-bíblica e a sua consequente
substituição pela teologia bíblica.
A pergunta que reverbera numa conclusão como esta é por que as
teologias sistemáticas foram contadas como não-bíblicas?
Como resposta a esta difícil pergunta os congressistas primeiro
insistem em dizer que a teologia sistemática dos últimos cinquenta anos mudou,
e mudou muito a sua relação com a Bíblia. Se é verdade que a acusação de
filosofismo ou doutrinarismo poderia valer para a sistemática clássica, como
observaram os fundadores da teologia bíblica no século XIX, isto já não tem o
mesmo peso para a sistemática contemporânea. Esta, apesar das muitas
tendências, reconhece a necessidade de se basear de forma mais consistente na
Escritura, evitando o velho e clássico método dos textos-prova – que não provam
nada, a não ser os gostos das denominações.
Em segundo lugar, os congressistas advogam a crença de que a
teologia bíblica (a disciplina acadêmica com esse nome) é mais bíblica do que a
sistemática por não se deixar influenciar pelo denominacionalismo amordaçador.
Segundo os participantes do referido congresso, a ciência “teologia bíblica”
representaria uma leitura histórica objetiva da Escritura.
A possibilidade de um conhecimento plenamente objetivo, derivado
totalmente do objeto da pesquisa, não atrapalhado por aspectos da subjetividade
do pesquisador, é pura ilusão. A virada linguística e a nova física, no século
XX, revelaram o caráter ilusório dessa crença: todo conhecimento é conhecimento
produzido por alguém e, no ato mesmo de sua produção, o pesquisador já
interfere no objeto pesquisado.
Diante do fato apresentado, qual a importância e a necessidade de
uma teologia sistemática contemporânea? E que cara teria essa sistemática?
Em primeira mão, essa teologia sistemática contemporânea não seria,
certamente, um ambicioso sistema que englobasse tudo que se pode dizer sobre
Deus e suas relações com o cosmos. Deveria ser um sistema aberto, flexível, que
– a partir da Escritura – procurasse encontrar respostas teologicamente
adequadas e significativas para os problemas atuais, os problemas religiosos e,
especialmente, para os problemas ecológicos e sociais.
Em segundo lugar, deveria nos auxiliar a fugir do imitacionismo de
modelos enlatados e pacotes prontos para o sucesso da vida cristã e do ministério.
Positivamente, nos ajudaria a enxergar além de nossos próprios umbigos
eclesiásticos e olhar para o mundo todo sob a ótica da missão de Deus para o
Seu povo.
Essa – mais ou menos – deve ser a cara de uma teologia sistemática
contemporânea: a preocupação constante de teologar os problemas atuais no
âmbito bem mais explícito do que até então estávamos acostumados a pensar. E
sermos absolutamente bíblicos em nosso ponto de vista se deixarmos de lado as
“convenções” que distorcem os ensinamentos bíblicos. Quando falo de
“convenções” não estou falando daquelas que são abalizadas, autênticas,
fundamentadas nas Escrituras, mas sim das que originam-se de apologias
comprometidas e equivocadas.
Do exposto, dou-me por satisfeito se este livro de teologia sistemática
escrita por um brasileiro cair em mãos de leitores que apreciam leitura
confortável, suave, mas ao mesmo tempo firme, substancial e objetiva. Ficarei
regiamente recompensado se, porventura, este livro vier a parar em mãos de
leitores críticos que buscam fundamentos das doutrinas bíblicas. Digo assim,
porque não podemos conviver apenas com os que nos aceitam, mas também com os
que nos rejeitam. Aceitando ou rejeitando fiz o que, até este momento, pude
fazer. Este foi um dos meus momentos históricos vivenciados no espaço
existencial que me concedeu Yahweh.
Que Deus nos ilumine na exposição deste livro a fim de não
perdermos os rumos de uma interpretação eminentemente bíblica, levando sempre
em conta o que a Bíblia diz e não o que eu já conheço dela.
Vem aí o livro “Teologia
Sistemática Escrita
Por um Brasileiro”.
Autor:
Rev. Paulo Cesar Lima.
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